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Juros baixos não empurrarão poupadores para o consumo”, diz economista

O nocaute que o governo federal esta aplicando nos juros bancários não ameaça o sistema financeiro e permite mais investimentos no setor produtivo com geração de emprego e renda. É o que afirma o economista Fábio Guedes, doutor em Economia e professor do Mestrado em Economia da Ufal. Nesta entrevista exclusiva ao PRIMEIRA EDIÇÃO, ele diz que foi oportuna a mudança no rendimento da caderneta de poupança e descarta o risco de o pequeno poupador sacar e correr para o consumo. Também afirma que a queda dos juros, que deve prosseguir se não houver mudanças inesperadas nos índices inflacionários, não afeta a estabilidade dos bancos. “Não temos justificativa plausível para que os bancos cobrem 185% de jurps ao ano no cheque especial”.

O Brasil está ‘pronto’ para ter juros bancários de primeiro mundo?
Estamos caminhando nessa direção e essa mudança na regra de remuneração na caderneta de poupança foi um importante passo. Não temos justificativas plausíveis para que os bancos cobrem, em média, 185% de juros ao ano no cheque especial e que algumas bandeiras de cartões de crédito cheguem ao extremo de cobrar mais de 600% ao ano.

O governo quer a selic (taxa básica de juros do Banco Central) abaixo de 8% ainda este ano. Vai conseguir?
Bem, existe uma tendência de na próxima reunião do COPOM que a Selic fique em 8,5% ao ano. Como ainda teremos mais reuniões até o final de 2012, certamente a taxa básica de juros pode baixar ainda mais se não ocorrer nada de inesperado nos índices inflacionários ou impactos externos.

É possível praticar juros de primeiro mundo num país de cultura usurária?
É difícil, mas não impossível. Tínhamos também uma cultura inflacionária e hoje convivemos com índices de inflação abaixo de 2 dígitos, bem ao contrário do que vimos na década de 1980 quando chegamos a ter hiperinflação.

O governo mexeu com o rendimento da poupança na hora certa?
Pode ter sido a hora certa, pois em várias economias internacionais importantes a taxa de juros é muito baixa ou mesmo negativa. Com isso, a remuneração das aplicações também não é tão alta. Se a economia mundial vive um momento de crescimento econômico muito baixo, com a crise europeia muito forte e os EUA ainda tentando achar o caminho novamente do crescimento, o Brasil para continuar crescendo teria que compatibilizar investimentos e os custos dos financiamentos. E isso só reduzindo as taxas de juros. Por isso a mudança na regra da poupança veio em um momento importante para continuarmos o ritmo de crescimento com geração de empregos, renda e diminuição das desigualdades de renda.

Existe o risco de o pequeno poupador sacar sua poupança e correr para o consumo?
De forma alguma. A poupança continua como uma das aplicações mais seguras do portfólio financeiro no país, principalmente por não incidir imposto de renda tampouco se pagar taxas de administração. Assim o pequeno poupador continuará se esforçando para manter uma parte de sua renda guardada.

A eventual elevação da inadimplência, com juros em queda, não pode gerar crise nos bancos, forçando inclusive a dispensa de funcionários?
Pelo contrário, a inadimplência tenderia a crescer se os custos financeiros das dívidas tivessem numa trajetória de elevação. Por exemplo, pesquisas do nível de endividamento do consumidor de Maceió, realizada pela Fecomércio-AL, apontam que a inadimplência tem caído ou ficado estável em nossa capital. Então, se a tendência dos juros é diminuir na economia brasileira, provavelmente os consumidores poderão contrais mais dívidas baratas.

A queda drástica dos juros pode comprometer a estabilidade do sistema bancário?
Não. O sistema bancário brasileiro vai muito bem obrigado desde o primeiro mandato do governo Lula. Desde a segunda metade da década de 1990 que foi se constituindo uma institucionalidade, com regras e procedimentos de fiscalização, que tornaram o sistema bancário brasileiro um dos mais seguros do mundo atualmente. Devemos lembrar que a experiência da falência de alguns bancos no país depois de 1994 e a criação do PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), em novembro de 1995, foi o primeiro passo no fortalecimento desse sistema.

Juros baixos demais não podem estimular o consumo e provocar inflação?
Existem várias explicações para o fenômeno da inflação. Geralmente a sociedade e alguns economistas insistem em admitir apenas uma razão, qual seja: que a inflação é causada pelo excesso de consumo decorrente do aumento, por exemplo, dos salários, crédito ou gastos do governo. Agora mesmo temos uma tendência de elevação de alguns índices em razão, sobretudo, de problemas na oferta de alimentos, como o feijão, por exemplo. A forte estiagem que está provocando no Nordeste uma das secas mais fortes dos últimos 30 anos e isso tem um forte impacto na agricultura e pecuária, tornando a oferta de alimentos mais estreita. Por isso, devemos observar o aumento dos preços de alguns produtos se as chuvas não caírem nos próximos meses.

Por que o governo empurra tanto com a barriga a reforma tributária?
A questão é bastante complexa. No Brasil é praticamente inviável politicamente uma reforma tributária ampla, pois isso envolve diversos e inúmeros interesses. Em razão de sermos uma federação, uma reforma dessa natureza envolve os interesses de estados, municípios e governo federal; em razão de termos uma economia relativamente diversificada, temos as divergências dos inúmeros setores produtivos, de comércio e serviços e agricultura em quem deve pagar mais e/ou menos tributos; do lado da sociedade existem vários segmentos como os trabalhadores, patrões, profissionais liberais etc. que defendem seus direitos a bens públicos, mas na hora de pagar impostos se contrapõem. Enfim, reforma tributária geralmente se define quem pagará impostos e quem os receberá sobre diversas maneiras e isso é bastante complicado. Por isso, compartilho da opinião do ex-ministro Delfim Neto de que nessa matéria o país avançará através de minirreformas tributárias.

Se reduzisse a carga tributária, o governo não conseguiria ampliar a base de contribuição, elevando a receita de impostos?
Veja, se o governo reduzir a carga tributária poderá incentivar alguns setores produtivos como foi feito com a linha branca e os automóveis e isso estimulou a produção e as vendas. Claro que a arrecadação aumentou em razão do crescimento econômico. Por outro lado, os municípios que dependem do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) viram suas finanças se deteriorarem em razão do IPI, o imposto que foi reduzido, ser um dos principais contribuintes do FPM. O maior peso mesmo das despesas do governo federal tem sido com pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Em 2011 foram praticamente 46% de todo o orçamento federal gastos com isso. Então, se os juros virem caindo no Brasil o efeito será uma redução também nesse tipo de despesa e o governo terá mais folga para diminuir alguns impostos e estimular as atividades produtivas.



Publicado em: 14/05/2012         Fonte: Jornal Primeira         Postado por: Equipe Essência Sobre a Forma

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