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A PEC 37 e o mundo corporativo

Eduardo Carmello*

Se você ainda não sabe do que trata a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, apresentada pelo deputado federal Lourival Mendes (PTdoB-MA), em junho de 2011, aqui vai um breve resumo: segundo a proposta, os Ministérios Públicos Estaduais e Federal não poderão mais fazer investigações sobre crimes praticados por integrantes dos governos, o que caberia exclusivamente à polícia. Na prática, se aprovada, a emenda inviabilizará investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos.

Embora isso soe como um absurdo, a PEC 37, ou algo bem similar, vigora em uma parte significativa das empresas brasileiras, onde não há poderes externos à diretoria que julguem as práticas de presidentes, diretores e gerentes tanto no que diz respeito aos negócios e gestão financeira quanto às práticas de relacionamento com funcionários e clientes.

Esse poder quase absolutista da direção de muitas empresas vem sendo atenuado com a criação de estruturas de governança corporativa, que definem regras de comportamento e buscam sua adoção em todos os níveis da organização. Mas, até mesmo nesse contexto, o que vemos é que esses grupos têm atuação limitada e pouco poder para contestar eventuais decisões equivocadas emanadas da direção da empresa.

Um exemplo interessante é o manual de conduta ética aprovado em muitas organizações, especialmente em multinacionais estrangeiras de origem norte-americana. Embora esses manuais especifiquem claramente o que é e o que não é uma prática ética no contexto da organização, o que notamos, muitas vezes, é que essas práticas são avaliadas por pessoas e pessoas estão sujeitas a pressões políticas e tráfico de influência.

No mundo corporativo, de modo geral, salvo algumas honrosas exceções, já vigora uma certa PEC 37, pois as decisões da direção da empresa raramente são contestadas, até mesmo quando existem órgãos e estruturas de controle como códigos de ética e governança corporativa. E se não sabemos ainda quais seriam os efeitos de uma PEC 37 na sociedade, porque felizmente a proposta de alteração da Constituição vem sendo combatida em várias frentes, no mundo corporativo nós conhecemos claramente esses efeitos: omissão, silêncio, afastamento daqueles que questionam, perda de talentos e decadência da empresa e dos negócios.

Quando as pessoas percebem que não existem órgãos sérios de controle que impeçam abusos por parte da direção da empresa, o que resta é o silêncio. No caso das pessoas talentosas, que questionam esse tipo de prática, a vida é ainda mais difícil e resulta, quase sempre, em ruptura com a organização, seja pelo fato de que são demitidas ou porque simplesmente vão buscar melhores oportunidades em empresas sérias.

A ausência de estruturas que questionem decisões autocráticas nas empresas e na sociedade leva, fatalmente, ao acúmulo de erros, uma vez que, na maioria dos casos, as pessoas adotam práticas não porque as consideram “as melhores alternativas”, mas simplesmente porque é impossível questioná-las. O resultado é o empobrecimento do estoque de conhecimento das empresas e da sociedade, um movimento que leva, fatalmente, à decadência, à perda de credibilidade e, no caso das empresas, de negócios e de faturamento.

Para muitos, essa premissa é inválida uma vez que constatamos que empresas geridas de modo autocrático, ditatorial, seguem no mercado, como se fossem imunes ao passar do tempo. Mas essa é uma visão equivocada, principalmente quando analisamos um país como o Brasil. Aqui, em muitos segmentos, temos empresas com nenhum ou poucos concorrentes, amparadas até por legislações que as beneficiam. Assim sendo, é claro que a mudança é dificultada ou até quase bloqueada, pois os consumidores não têm outra opção. Mas é só darmos uma olhada nas páginas de defesa do consumidor para constatarmos que, a despeito de todo o monopolismo, essas empresas são odiadas pela sociedade, que as aponta como as piores empresas quando o assunto é relacionamento com clientes. No campo das ações trabalhistas, coisa semelhante acontece.

A pergunta evidente é: como uma empresa com esse passivo de imagem sobreviveria em uma situação de abertura de mercado e de livre competição? A resposta é: não sobreviveria. É por essa razão que sistemas que impedem o livre fluxo de ideias precisam se manter cada vez mais fechados, pois a abertura, a existência de competidores melhores preparados para lidar com os consumidores, fatalmente levaria essas organizações ao fim.

* Eduardo Carmello é palestrante, consultor e Diretor da Entheusiasmos.



Publicado em: 02/05/2013         Fonte: Revista Incorporativa         Postado por: Equipe Essência Sobre a Forma

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