COLUNISTAS


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Edson Oliveira

• Bacharel em Ciências Contábeis;
• Pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior;
• Escritor, professor e membro da Academia Brasileira de Ciências Contábeis;
• Exerceu o cargo de gerente contábil e financeiro por mais de 30 anos em empresas de médio porte;
• Atualmente exerce atividade docente como professor das disciplinas contabilidade informatizada, análise de custos e administração financeira;
• É autor de vários artigos e livros publicados no Brasil e no exterior.

 


Afinal, custo ou despesa?

Por Edson Oliveira

 

Os termos utilizados em contabilidade são, em alguns casos, de difícil compreensão. Isto não acontece apenas com os leigos no assunto. Em várias oportunidades acontece também com estudantes e profissionais que atuam na área. É que falta uniformidade na tradução de algumas palavras utilizadas no dia a dia dessa ciência.

Neste artigo tratarei especificamente de duas palavras bastante conhecidas, mas pouco observadas por alunos e até mesmo por alguns profissionais de contabilidade. Essas palavras são: custo e despesa. Qual a diferença entre uma e outra? Existe essa diferença? Porque algumas pessoas tratam como custo um determinado valor e outras chamam esse mesmo valor de despesa?

Vou utilizar uma linguagem técnica para explicar as duas palavras. Certamente, ainda haverá um pouco de confusão para aqueles que não estão acostumados com os termos contábeis mais usuais.
O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define despesa assim: [Do lat. dispensa] S. f. 1. Ato ou efeito de despender. 2. Tudo aquilo que se despende; dispêndio.

Como se pode notar, ainda não diz com clareza o que significa despesa. É preciso conhecer o significado de despender. No mesmo dicionário, a palavra despender é definida desse modo: [Do lat. dispendere] V. t. d. 1. Fazer despesa de; gastar. 2. Espalhar com liberalidade; prodigalizar. 3. Gastar; consumir. 4. Fazer despesas, dispêndios; gastar.

Observa-se que a língua portuguesa é mesmo confusa. Consegue complicar o que deveria ser mais simples, mais objetivo. 

Seguindo em busca do significado de custo, no mesmo dicionário, encontra-se: [Dev. de custar.] S. m. 1. quantia pela qual se adquiriu algo. 2. Valor em dinheiro. 3. Fig. Dificuldade, trabalho, esforço.

E assim continua tudo no mesmo. O dicionário da nossa língua não ajuda muito.

Contudo, quando se trata de terminologia contábil há uma dificuldade ainda maior de compreensão. Há até disciplina com o nome de Contabilidade de Custo. Seria o mesmo que Contabilidade de Despesa? Não faz sentido...

Acredito que muitos alunos desejam entender a diferença entre essas duas palavras, entretanto não conseguem. Vou tentar ajudá-los com este texto. 
Esqueçam, neste momento, o que está escrito no dicionário. Lá é o genérico da língua. Aqui vou utilizar a terminologia da técnica contábil mais adequada para a compreensão dessas duas palavras.

Assim, despesa é o valor que é pago, ou não, por um determinado serviço ou material de uso. Quando digo que é pago ou não é porque mesmo não havendo o desembolso a despesa pode existir. Exemplo: em uma empresa comercial, houve consumo de água, mas não houve pagamento da conta na data do vencimento. Então a contabilidade, baseada no regime de competência, contabiliza a despesa de água, no grupo de Despesas Administrativas, e registra a obrigação a pagar no Passivo Circulante, até que aconteça o efetivo pagamento.

Se uma empresa comercial adquirir um bem, não podemos dizer que há despesa. É estoque, se esse bem for mercadoria para revenda, ou é imobilizado, se for um bem adquirido para uso próprio. Em alguns casos a legislação tributária federal interfere no tratamento e permite que se registre em despesa operacional o valor de um bem adquirido. Mas isso é uma exceção em decorrência do pequeno valor do bem e de sua vida útil. É um tratamento permitido, de modo facultativo, pela legislação do imposto de renda, para empresas que fazem opção pelo lucro real.

Por outro lado, o regime de competência também possibilita que futuras despesas sejam contabilizadas no Ativo Circulante e no Ativo Permanente. É o caso de despesas pagas antecipadamente (assinaturas de jornais e revistas, por exemplo). Elas são contabilizadas como Ativo Circulante, com o título de Despesas Antecipadas, e apropriadas mensalmente durante o período de vigência dessas assinaturas. Não deveriam ser chamadas de despesas e sim de Valores a Apropriar.

Deve ser contabilizado no Ativo, no grupo do Imobilizado, portanto não é custo e não é despesa, o valor aplicado na reforma de um prédio de uma empresa. Isto porque essa reforma beneficiará mais de um exercício social e o valor precisa ser imobilizado, já que o imóvel passou a ter nova vida útil por mais um determinado período.

São reconhecidas como despesas as parcelas de depreciação que não sejam decorrentes de bens da área produtiva, as provisões para devedores duvidosos, os encargos sociais e trabalhistas, as tarifas bancárias e ainda os impostos e contribuições. São, portanto, despesas administrativas, financeiras, tributárias etc.

Custo pode ser entendido como o valor de aquisição de um determinado bem. Exemplo: custo de aquisição de um veículo; custo de aquisição de mercadorias para revenda etc. Se a empresa é industrial, o custo é o valor aplicado na produção para se fabricar um produto. Exemplo: custo de fabricação do produto, custo de pessoal da área produtiva, custo de manutenção das máquinas produtivas etc. Esses valores não são registrados em conta de resultado e sim em conta patrimonial do Ativo Circulante, no grupo de produtos em elaboração. Observe-se que custo em uma empresa industrial é um valor registrado no Ativo Circulante e não em uma conta de resultado, portanto não deve ser entendido como despesa.

Acredito que por um entendimento equivocado a contabilidade trata o valor das mercadorias vendidas como custo e chama essa operação de Custo das Mercadorias Vendidas (CMV). Deveria chamar de Despesas com Vendas de Mercadorias (DVM), uma vez que o Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) a que a contabilidade se refere é uma despesa operacional e não um custo. É aí que a contabilidade faz mais confusão. Chama despesa de custo, quando na verdade custo deve ser entendido como um valor que será registrado no Ativo. É, por exemplo, uma aplicação em um bem que está sendo produzido. Daí o termo custeio (apuração do valor que foi gasto para custear e produzir um bem). Mas, no momento que o produto é vendido, a contabilidade, por equívoco outra vez, chama de Custo do Produto Vendido (CPV). Deveria chamar de Despesa do Produto Vendido (DPV), já que o registro a débito é feito em uma conta de resultado, tendo como conta de crédito o estoque de produtos acabados. Talvez esse título ajudasse a melhorar a confusão.

Para facilitar, deixo uma sugestão: o gasto que se contabiliza em conta de resultado, deve ser tratado ou considerado como despesa. Exemplos: salários, encargos sociais, impostos sobre vendas, serviços prestados, aluguéis devidos, encargos financeiros etc. E quando o registro do gasto não for feito em conta de resultado, deve se chamar de custo, devendo ser registrado no Ativo. Exemplos: custo de aquisição de mercadoria para revenda (estoque); custo de aquisição de bens móveis (imobilizado); custo da matéria-prima adquirida (estoque), custo de fabricação do produto (estoque de produtos acabados) etc. Assim, o valor de um serviço prestado para área produtiva de uma indústria não é despesa e sim custo, porque esse valor vai ser registrado em uma conta do Ativo (estoque de produtos em elaboração) como custo de fabricação dos bens produzidos naquela indústria. Somente depois que o produto for vendido é que haverá o registro na conta de resultado, na forma de Despesa do Produto Vendido (DPV).

Concluindo: em contabilidade, custo não é a mesma coisa que despesa. Custo é registrado em conta patrimonial do Ativo e despesa é registrada em conta de resultado. Se o valor não for registrado em conta de resultado, a exemplo das assinaturas a vencer, ele deve ser chamado de Valor a Apropriar, porque não é custo e ainda não é despesa.

Mas, infelizmente, há quem prefira afirmar que os dois termos, custo e despesa, têm o mesmo significado em contabilidade. Acredito que isso serve apenas para confundir ainda mais estudantes e profissionais desavisados. 

 

Postado dia 06/10/2016 - Fonte: Essência Sobre a Forma


Comentários:


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Joanita Lima

Estudante
Salvador - BA
Membro desde: 13/09/2015
Excelente,professor!!!

Dia 11/10/2016 às 23:43:34

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