COLUNISTAS


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Levi Gimenez

• Mestre em Ciências Contábeis e Financeiras pela PUC São Paulo;
MBA – Investimento e Gestão na Indústria Sucroalcooleira na ESALQ-USP;
• Pós - graduação em Controladoria – FECAP Fundação Armando Álvares Penteado;
• Graduação em Ciências Contábeis - PUC São Paulo;
Co-autor do livro Contabilidade Para Gestores, pela Editora Atlas (2011), com o Prof. Dr. Antonio Benedito Silva Oliveira;
Professor na pós-graduação em Contabilidade, Auditoria, Controladoria e graduação da PUC – Campinas;
• Avaliador do Congresso USP de Iniciação Científica em Contabilidade desde 2009 e de diversas revistas acadêmicas;
Diversos artigos publicados em congressos no Brasil e no exterior;
• Lecionou nos cursos de graduação e pós graduação na UMC – Universidade de Mogi das Cruzes, UniABC e Estácio de Sá;
• Membro-Fundador da Sociedade Brasileira de Finanças, em evento ocorrido na FGV-EAESP em Julho/2.001;
• Membro da ABC – Associação Brasileira de Custos;
• Ocupou cargos de diretoria, gerencia financeira e controller de diversas empresas nacionais e estrangeiras.
• Atualmente é sócio-fundador da Ganas Consultoria e Treinamento Ltda.

 


PMEs: Gerindo por indicadores e antecipando problemas e oportunidades

Por Levi Gimenez

Existem algumas teorias conflitantes sobre sobrevivência das empresas. Uma delas estabelece que as empresas, como os serem humanos, nascem, crescem, tem um período de maturidade e morrem. Por esta teoria não há muito o que fazer pois a fatalidade é uma questão de tempo.

Outra teoria bastante em voga remonta aos ensinamentos darwinianos da ecologia das populações ou sobrevivência do mais apto. Sob esta perspectiva as empresas vivem em um ambiente hostil, com muitos predadores e somente os mais aptos sobrevivem.  Em outros termos, empresas maiores vão absorvendo mercados e/ou empresas menores. e a grande maioria morrerá neste meio tempo.

Diversas outras teorias, mesmo as que consideram a gestão como elemento diferenciador, buscam explicar o ciclo de vida das empresas, não obstante, nenhuma delas nos permite extrapolar ensinamentos suficientes para atingir a perpetuidade ou, ao menos, uma extensão de vida às empresas.

A moderna teoria administrativa, através de seus gurus, tem nos brindado com inúmeras obras, versando sobre métodos, hábitos, procedimentos, regras etc, abordando toda sorte de desafios que enfrentam os gestores, buscando encontrar caminhos para que as empresas minimizem riscos, explorem oportunidades, cresçam de forma sustentada.

Em verdade, estes autores com suas pesquisas e obras buscam receitas para a perpetuidade, em se tratando de empresas uma tarefa fadada ao fracasso uma vez que o mesmo ingrediente se comporta diferente para cada empresa.

No que tange as PMEs os ensinamentos ou benefícios propostos não as atingem. Embora as obras proponham soluções abrangentes e universais as pequenas e médias empresas não se veem contempladas, seja porque determinados problemas / questões ainda não as afetam dado ao seu tamanho ou estrutura, seja porque não dispõem dos recursos disponíveis para enfrentá-los. Nestas empresas os recursos disponíveis são alocados no processo produtivo, na comercialização ou prestação de serviços.

Ciente das limitações, inclusive de recursos para dispender com consultorias, objetivamos preencher a lacuna da falta de instrumentos simplificados de gestão para PMEs, apresentando um método simples, baseado nas demonstrações contábeis apresentadas por escritórios de contabilidade terceirizados ou equipe própria. São eles as análises horizontal e vertical da Demonstração de Resultado, a margem de contribuição bruta, a margem operacional, o EBITDA e a margem líquida.

Consistem em análises simples, porém efetivas quanto aos resultados, que não demandam grande volume de tempo e recursos, e os contadores podem apresenta-las a seus clientes, internos ou externos (contabilidade terceirizada). São uma extensão da contabilidade societária, ou seja, no âmbito da contabilidade gerencial, que podem contribuir com a criação de valor para o cliente, valorizando os serviços prestados. Podemos, nós contadores, abandonarmos a visão da contabilidade fiscalista para o contador como partícipe do processo decisório e por extensão do negócio do cliente. Uma visão de valor adicionado.

É importante acrescer que os valores apontados através das análises são indicadores, e como tais, não são respostas e sim questões para as quais os gestores precisam de explicação para tomarem as decisões em linha com a estratégia da empresa. Neste caso poderíamos afirmar, em linha com o plano estratégico da empresa, o que presume algo formalizado que nem sempre as pequenas e medias empresas possuem. Dispõem sim de uma estratégia que pressupõe como atingir mercados, com quais produtos, a que preços, quando etc, mas nem sempre formalizados.

Como exemplo, a análise horizontal demonstrou que os custos aumentaram 12%, devido a mão de obra, afirmação esta que significa pouco, posto que, a pergunta é quais fatores impulsionaram este aumento. A partir desta resposta o gestor tomará as decisões cabíveis.

Outrossim, estes instrumentos são relevantes quanto comparadas com períodos anteriores e outras empresas do mesmo ramo. Tem eficácia maior quanto usadas com outros indicadores departamentais e instrumentos como o orçamento.

A obtenção de indicadores de qualidade presume a elaboração das demonstrações contábeis em observância aos aspectos qualitativos das demonstrações contábeis. Indicadores obtidos a partir de demonstrações que não respeitam estes quesitos não tem qualquer valor prospectivo ou preditivo, podendo inclusive levar o gestor a tomar decisões equivocadas.

O conhecimento do estágio atual da empresa permite ao gestor antecipar riscos, tomar medidas preventivas, conhecer as fraquezas e pontos fortes, bem como usá-los para explorar oportunidades.

Iniciaremos com as análises vertical e horizontal. Analise vertical, no caso da Demonstração Resultado, consiste na relação entre todas as linhas da Demonstração de Resultado (contas ou grupo de contas) em relação a receita liquida:

 

{C}{C}{C}

 

Esta análise indicará o atual momento da empresa, alertando os gestores onde caberá análise para posterior decisão quanto as medidas a serem tomadas.

Como podemos observar os cálculos tomando como base 100 a receita operacional líquida. Os impostos não devem ser analisados neste contexto porque serão compensados e recolhidos. Destaque também são os períodos, no caso 2015 e 2014, porque a análise de apenas um período é infrutífera pois não tem base de comparação. Tomemos como base o custo sabemos que corresponde em 2015 a 62% das vendas líquidas ao compararmos com o ano anterior cujo percentual era de 71% sabemos que proporcionalmente houve uma redução. Pergunta: quais foram os eventos que levaram a esta redução? A resposta orientará o gestor quanto as decisões a serem tomadas para manter os custos no patamar de 2015 ou ainda reduzir mais.

A análise horizontal da Demonstração de Resultado consiste na comparação entre períodos, em valores e/ou percentis tomando um período como base 100, normalmente o mais antigo da série de análise:

{C}{C}{C}

 

Esta análise denotará o momento atual da empresa, permitindo aos gestores tomarem medidas cabíveis para continuar, ampliar o crescimento ou corrigir resultados ruins.

As análises em separado dizem pouco, assim carece que analisemos de forma combinada. Porque, por exemplo, uma variação grande de um valor que pouco representa sobre o resultado talvez não seja necessário aprofundar a análise porque nenhuma decisão será necessária dada a materialidade:

 

 

{C}{C}{C}

 

O outro indicador é Margem de Contribuição que consiste no preço de venda deduzidos os custos e despesas variáveis para a realização desta venda.

Entendemos como calor das vendas: valor das vendas totais de produtos e serviços, independente da modalidade cartão (de crédito ou débito), dinheiro, cheque etc, ou do prazo de pagamento, a vista, parcelado.

Custos variáveis são o valor dos produtos ou serviços adquiridos e diretamente vinculados ao produto. Ex.: matéria prima e mão de obra e despesas variáveis são valores pagos diretamente pela venda do produto. Exemplo: comissões.

É fundamental que a margem de contribuição seja fixada no momento da cotação de preços de venda dos produtos e serviços ao cliente, ou seja, deve-se conhecer a margem de contribuição antes da venda.

A fórmula de cálculo é:

 

{C}{C}{C}

 

Uma das dificuldades de calcular a margem de contribuição é a segregação dos custos fixos dos custos variáveis, mas é importante fazê-lo para termos a noção exata dos itens envolvidos diretamente com o produto (custos variáveis) e os custos fixos, como são alocados por rateio, além de certo grau de arbitrariedade, envolvem custos ligados a estrutura e não diretamente ao produto, reduzindo assim o poder preditivo da análise. Esta segregação consiste na principal vantagem entre a margem de contribuição e o lucro bruto.

A margem de contribuição apresenta um valor médio posto que os produtos e serviços tem preços e custos diferentes. Decisões sobre grandes volumes, com margens menores, exigem simulações separadas para verificar o impacto no resultado.

É importante ressalvar que as margens nunca devem ser negativas, excetuando situações excepcionais quando a empresa pretende ampliar sua participação no mercado, ou alguma campanha de marketing. Em condições de ociosidade do parque industrial qualquer margem é melhor que nenhuma porque ajuda a amortizar o efeito das despesas fixas, embora a empresa deva sempre perseguir as maiores margens de contribuição possível.

A margem de contribuição também pode ser apurada por cliente, produto, vendedor, canal de distribuição, área geográfica etc. Cada uma destas informações conduz a diferentes abordagens operacionais para incrementar o resultado da empresa. Abaixo um exemplo de cálculo por produto:

{C}{C}{C}

 

Observemos os produtos “A” e “C” embora tenham o mesmo nível de atividade econômica o produto “C” deve ter sua venda incentivada uma vez que contribui mais para o resultado da empresa. Em contraposição, para o produto “B” caso haja elasticidade-preço da demanda poderá a empresa conceder descontos para aumentar as vendas.

O conhecimento da Margem de Contribuição é fundamental no processo decisório, seu desconhecimento pode ser danoso para o futuro do negócio, sobretudo se a empresa estiver vendendo com margens muito baixas ou prejuízo.

O próximo indicador e a Margem Líquida que consiste no percentil que sobra para os investidores relacionados com as vendas de produtos e serviços.

 

{C}{C}{C}

 

Devemos considerar como Lucro Líquido o resultado apurado subtraindo das vendas totais os impostos incidentes sobre a receita, devoluções e cancelamentos, custos e despesas, operacionais e não operacionais e os impostos incidentes sobre o lucro e como Vendas o resultado da negociação dos produtos e serviços da empresa com terceiros deduzidos dos impostos sobre vendas, devoluções e cancelamentos.

A Margem Líquida é o resultado da empresa, em determinado período, sob a visão dos investidores: investidores, acionistas ou quotistas. Podemos entender este indicador como aquilo que sobra para o investidor relacionado a atividade econômica da empresa (vendas). No entanto, caso queira verificar a rentabilidade de seu investimento é necessário comparar o lucro líquido com o valor investido

Utilizando os dados da empresa Alfa Comunicações temos:

 

A Margem Operacional consiste no resultado operacional da empresa, incluindo as receitas financeiras e investimentos em coligadas e controladas

A fórmula da margem operacional é:

{C}{C}{C}

 

Devemos entender por Lucro Operacional as vendas liquidas, adicionadas as demais deduzidos os custos e as despesas, excetos as despesas financeiras, enquanto as Vendas são o resultado da negociação dos produtos e serviços da empresa com terceiros deduzidos dos impostos sobre vendas.

A Margem Operacional é o resultado sob a perspectiva da empresa, ou seja, o valor, que positivo ou negativo, sobra antes de remunerar os investidores: lucro ou prejuízo.

O penúltimo indicador abordado será o EBTIDA/LAJIDA, principal indicador usado principalmente pelos analistas de mercado em avaliação de investimentos em empresas, mas o conceito é útil para todas as empresas compreenderem sua capacidade de geração de caixa operacional.

Estes acrônimos significam: EBITDA - Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization ou LAJIDA - Lucro Antes dos Juros Impostos Depreciação e Amortização.

O motivo pelo qual são eliminados do cálculo a depreciação, amortização, exaustão, resultado financeiro e impostos sobre o lucro é porque tem efeito de provisão e não de caixa direto.

Quanto a sua definição temos:

 

Medida de desempenho econômico-financeira, mede a capacidade potencial de geração de fluxos de caixa operacional, indicador de desempenho bastante usado para avaliação de empresas justamente por ter o caixa operacional como foco. (GIMENEZ & OLIVEIRA, 2011, p.110)

 

Entre os principais motivos para aceitabilidade deste indicador está:

·         {C}Eliminação dos efeitos de decisões contábeis e de investimento;

·         {C}Consegue mensurar o desempenho do negócio (eficácia), o desempenho gerencial, o desempenho do negócio, sua produtividade, em cenários de competitividade e inovação.

 

Considerada como outra virtude deste indicador o fato que o desempenho da empresa mensurado pelo lucro ou prejuízo pode ser ineficiente devido a fatores tais como o resultado financeiro, depreciação e amortização e os impostos sobre o lucro.

O quadro abaixo apresenta o EBITDA. Observem que há alteração nos resultados ao desconsiderar os itens depreciação, resultados financeiros e os impostos sobre o resultado para o ano de 2015 temos os caixas operacionais de 2015 de 2.862, equivalente a 6% e -245, ou -0,5%, enquanto o lucro líquido em 2015 foi de 1.127, equivalente a 3% e em 2014 -1.356, ou -3% sobre as vendas

 

{C}{C}

 

Considerações finais

As pequenas empresas não podem contar com instrumentos sofisticados de análise por uma questão de custo benefício ou simplesmente de disponibilidade de recursos (caixa e equivalentes). No entanto, podem aplicar algumas técnicas já consagradas no âmbito da contabilidade gerencial para analisar seu desempenho e confrontar com o planejamento estratégico.

Estes instrumentos são obtidos a partir da contabilidade societária, realizada dentro dos aspectos qualitativos das demonstrações contábeis, com ligeiras adaptações e possibilitam a empresa visualizar e efetuar uma análise mais acurada dos eventos contábeis que afetam o resultado e tomar decisões para perseguir os resultados em direção a estratégia planejada, formal ou informalmente, ou seja, a análise possibilita possibilidades de manutenção, corretivas e preditivas.

As análises horizontal e vertical apresentadas tem como função levantar questionamento sobre as contas da demonstração de resultado relacionada as vendas e exercícios anteriores para posterior análise e incorporação ao processo decisório. A análise de margem por sua vez apresenta um conjunto de opções que permite melhor visualização por produto, cliente, vendedor, área geográfica, etc. Estas informações são uteis para um posicionamento da empresa em relação a seu mercado.

A margem operacional permite visualizar o desempenho sob a perspectiva da empresa, a margem líquida sob a ótica dos investidores enquanto o EBITDA apresenta a capacidade de geração de caixa operacional.

Estes indicadores não demandam um grande volume de tempo ou recursos e podem ser apresentados pelos contadores a seus clientes como uma forma de gerar valor adicionado para as empresas (do cliente e do contador). Ao incrementar valor a prestação de serviços, indiretamente está valorizando o papel da contabilidade e do contador para a gestão do negócio.

É provável que esta prestação de serviços adicional e relevante permita ao contador aumentar a margem de contribuição e demais indicadores de seu negócio ou incrementar seu salário caso trabalhe como celetista.

 

 

Referências bibliográficas

DE IUDÍCIBUS, S. Análise de Balanços, 10ª Ed. São Paulo: Atlas, 2009.

GIMENEZ, L.; OLIVEIRA, A.B.S. Contabilidade para gestores. São Paulo: Atlas, 2011

GONÇALVES, R.C.M.G.; RICCIO, E.L. Sistemas de informação – ênfase em contabilidade e controladoria. São Paulo: Atlas, 2009.

MÁLAGA, F.K. Análise das demonstrações financeiras e da performance empresarial. 2ª Ed.  São Paulo: Saint Paul, 2012.

MARTINS, E.; DINIZ, J.A.; MIRANDA, G.J. Análise avançada das demonstrações contábeis. São Paulo: Atlas, 2012

MARTINS, E. Contabilidade de custos. 9ª Ed. São Paulo: Atlas, 2006

MATARAZZO, D.C. Análise financeira de balanços. 7ª Ed. São Paulo: Atlas, 2010

 

 

Postado dia 08/06/2016 - Fonte: Essência Sobre a Forma

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